8 de dezembro de 2021Comments are off for this post.

Prevenindo futuros agressores

A gente sempre pensa em como preparar nossos filhos e as crianças próximas para que não passem por uma agressão sexual. Essa preocupação é tão séria e tão presente na família que, de um jeito ou de outro, as crianças acabam orientadas a evitar situações de risco, como, por exemplo, para não se aproximarem de estranhos.

Quando tratamos de violência sexual, muito se fala do que se pode fazer para evitar futuras vítimas, mas pouco se diz da prevenção de futuros agressores. 

E então? Será que há algo a se fazer nesse sentido?

A violência sexual é um problema complexo, que acontece em toda parte do mundo e em qualquer tipo de família, independentemente de raça, de gênero,

 da classe social ou de nível sócio cultural. Apesar disso, a literatura aponta que determinadas condições favorecem a ocorrência de violência, incluindo aqui a violência sexual. Sabendo disso, talvez devêssemos pensar em formas de diminuir as ocorrências de abuso não apenas pela via da vítima, mas considerando o agressor.

    Os dados mostram que o abuso sexual é mais frequente em culturas machistas e que não respeitam as crianças como sujeito de direitos. Nesse tipo de estrutura, mulheres e crianças são percebidas como objetos dos homens que assim podem dispor, inclusive do corpo delas, conforme queiram. Consequentemente, esposas e filhos passam a funcionar como meios de um homem descontar suas frustrações, de exercer o ódio ou de sustentar alguma forma de poder. 

    Embora agressores sexuais tenham diversas motivações para abusar de crianças e adolescentes, alguns o fazem para alívio de stress e como forma de demonstrar controle e dominação. Nesse contexto, buscar uma sociedade mais justa e igualitária, na qual homens e mulheres, além das crianças, sejam reconhecidos igualmente em seus direitos, pode contribuir para a diminuir o problema do abuso sexual.

Na mesma via, talvez seja possível prevenir futuros agressores na educação de nossos filhos, no dia a dia. Ressaltar a importância em respeitarmos uns aos outros para além das nossas diferenças e transmitir a ideia de que homens e mulheres são iguais em termos de direito é fundamental nesse sentido. Com isso, falamos sobre entender e respeitar as particularidades de cada um, reconhecendo que nenhuma pessoa, independentemente do gênero ou do sexo biológico, vale mais do que a outra.

Com as crianças pequenas, é importante criar um canal de diálogo, de troca de experiências e esclarecimento de dúvidas. Tanto nos meninos quanto nas meninas, perguntas sobre relacionamento e sexualidade surgem com frequência e é desejável que essas questões possam ser esclarecidas de forma respeitosa e realista. 

Dar lugar para que os meninos expressem seus sentimentos e para que as meninas se interessem por assuntos variados também é importante. Vemos que os estereótipos de gênero muitas vezes reprimem a expressão da curiosidade infantil e de habilidades ou interesses que podem ajudar muito no desenvolvimento afetivo e social das crianças. 

Em razão disso, é importante que as crianças do sexo masculino possam brincar do que quiserem, não só com brinquedos tidos como “de menino”. O fato de que um garoto eventualmente brinque de boneca ou de casinha não interfere na sexualidade dele, mas o ajuda a desenvolver habilidades de organização e cuidado, além de permitir que ocupe uma posição mais afetiva com relação ao outro. Um menino que consegue perceber as diferenças, mas lidar com elas de maneira natural e empática tem muito menor possibilidade de se tornar um futuro agressor.

Finalmente, a construção das ideias de privacidade, intimidade e autonomia é tão importante para prevenir futuras vítimas quanto para evitar futuros assediadores. Explico:

Se, do lado da vítima, devemos orientar quanto à autoridade que cada um tem sobre o próprio corpo e sobre a possibilidade de dizer não diante de toques invasivos ou indevidos, do lado de quem pode vir a violar a intimidade de alguém, os mesmos conceitos são importantes, dessa vez ressaltando a necessidade de respeitar a privacidade dos demais e de solicitar consentimento, caso deseje acessar o espaço íntimo ou o corpo do outro.

Juliana Borges Naves

8 de setembro de 2021Comments are off for this post.

Quando a vítima gosta do agressor: será que teve abuso sexual mesmo?

É comum as pessoas acharem que não houve abuso sexual quando a criança/adolescente continua demonstrando boa relação com o suposto agressor. Acreditam que toda vítima tem sentimentos de medo, raiva, repulsa, revolta ou outros afetos negativos sobre o abusador. Apesar disso parecer natural e ser esperado pela maioria, é bastante comum que o indivíduo molestado mantenha laços de carinho com o responsável pela violência, especialmente quando há um vínculo familiar entre eles.

Quando o abuso é cometido por um parente e mesmo assim há bom vínculo entre a vítima e seu agressor, é provável que a convivência entre eles seja feliz na maior parte do tempo e a violência se destaque como um dos poucos momentos desagradáveis que estabelecem. Nesses casos, a criança costuma gostar de estar perto do abusador, que se mostra um bom cuidador ou é divertido, brinca com ela e a faz se sentir especial de alguma maneira.

Nos casos de abusos fora da família, a ligação entre a vítima e o agressor pode ter sido intencionalmente criada por este último. Crianças e adolescentes são considerados seres vulneráveis e, por essa condição, costumam receber mais supervisão. Para um abusador conseguir se aproximar delas, portanto, quase sempre é necessário que ele se empenhe em promover uma fachada de simpatia, tornando-se um amigo querido e especial. Isso pode ser conseguido com elogios, presentes, dinheiro, doces ou outras estratégias de manipulação.   

O carinho que a criança muitas vezes sente pelo abusador pode ser usado por ele para conseguir que a vítima se submeta à violência e para garantir o seu silêncio. Isso é possível porque ela gosta dele, não quer vê-lo punido e pode até defendê-lo. Nessa situação, a vítima não quer se afastar do agressor, apenas torce para que os abusos parem. 

Saber dessas questões é importante para que você esteja mais alerta para os riscos referentes ao abuso sexual de crianças e adolescentes. Fica claro sobre o quanto é errado julgar que uma violência desse tipo não ocorreu simplesmente porque as pessoas apontadas como vítima e agressor continuam se dando bem. Esses casos são complicados mesmo e é preciso muito cuidado para analisar os fatos.

Liliane Domingos Martins

27 de janeiro de 2021Comments are off for this post.

Afastando a vítima do agressor

Um dos cuidados mais essenciais ante à confirmação de um abuso sexual deve ser garantir que a vítima seja posta em segurança, a salvo de novos episódios de violência. O objetivo principal desse tipo de medida é o de resguardá-la, assegurando a devida atenção aos seus direitos básicos e impedindo que continue prejudicada quanto a seu bem-estar e desenvolvimento.

A literatura científica sinaliza que abusos que se repetem ao longo do tempo tendem a ser mais impactantes e desorganizadores para aquele que sofre a violência do que as situações que envolvem episódios isolados de vitimização. Além disso, à medida que os episódios se repetem, se tornam gradativamente piores, com condutas cada vez mais invasivas. Em razão disso, afastar a vítima do agressor pode ser algo necessário. 

Considerando a variabilidade dos casos de violência sexual, comumente esse afastamento vai ser sentido pela criança ou pelo adolescente como um alívio, especialmente quando a relação com o abusador é mais traumática. Em outras situações, principalmente nos casos que envolvem abusos intrafamiliares, o agressor pode ser uma figura de apego e referência para a vítima, sendo que o distanciamento em relação a ele deve ser bem analisado e conduzido para não representar um novo abalo emocional.

É nesse ponto que a rede de proteção assume um papel fundamental. É ela que, com profissionais capacitados, avalia o contexto da denúncia para evitar que injustiças sejam cometidas no processo, já que tais questões podem interferir irreversivelmente no vínculo entre a criança e a pessoa apontada como abusiva. A partir dessa verificação, cabe também aos órgãos desse sistema indicar o que é mais recomendável frente às circunstâncias postas, definir as estratégias protetivas mais pertinentes, orientar os familiares e promover apoio psicológico a todos os envolvidos.

Liliane Domingos Martins