29 de dezembro de 2021Comments are off for this post.

A criança gostou do abuso?

Muita angústia toma conta da família quando uma criança diz ter tido alguma sensação agradável durante o abuso. Principalmente crianças pequenas, que ainda não desenvolveram noções de vergonha e pudor, podem narrar situações sexualmente abusivas com muita tranquilidade e dar detalhes como de que sentiram “uma cosquinha gostosa” naquela hora. Esse tipo de situação, que causa horror nos adultos, tem explicação e é fundamental que entendamos o que se passa nesses casos para não corrermos o risco de sermos injustos com as vítimas.

Vemos que muitos pais se revoltam com os filhos, pois concluem que eles “gostaram de ser abusados”. Outros, chegam a castigar as crianças por isso, supondo que se trata de algum desvio de personalidade ou de uma participação voluntária e ativa na interação sexual com o agressor. Em todo caso, não é isso que ocorre.

O que precisa ficar claro é que a criança tem um corpo que reage de forma natural e fisiológica ao contato com o mundo. Assim como ocorre com os adultos, ela sente dor ante a um toque violento e desconforto em ambientes muito frios ou muito quentes. Da mesma forma, se tocada de maneira gentil e carinhosa, tende a ter sensações agradáveis. Quando abraçamos uma criança ou quando acariciamos seus cabelos, é comum que ela sinta isso como algo prazeroso e entenda esses gestos como expressões de afeto. 

Nesse ponto devemos lembrar que as partes íntimas são naturalmente sensíveis, cheias de terminações nervosas. É por isso que, tão logo uma criança deixa as fraldas, ela mesma descobre como é gostoso manipular essas partes. Por isso é comum perceber crianças pequenas manipulando os genitais em momentos de relaxamento e em qualquer ambiente. A reação dos adultos a isso costuma ser a pior possível, ante a conclusão de que aquela criança estaria se “masturbando”. O mais frequente é que esses adultos busquem reprimir tal comportamento, com o argumento de que seria algo inapropriado ou nojento. 

Precisamos entender que, para crianças pequenas, as partes íntimas não têm a conotação sexual que percebemos quando nos tornamos mais velhos. Para elas, a manipulação dessas partes apenas traz bem estar, assim como chupar o dedo ou torcer mechas de cabelo. Nesse sentido, a menos que sejam orientadas, podem não estranhar caso sejam tocadas nessas partes por algum molestador, especialmente se esse toque se dá de maneira delicada.

Obviamente, os agressores sabem disso e se aproveitam da confiança da vítima para inserir toques abusivos nas interações corriqueiras, muitas vezes como parte de brincadeiras ou travestidos de algum carinho normal entre adultos e crianças. Não é raro encontrar casos em que crianças abusadas desde tenra idade só descobrem que se trata de uma interação inapropriada muito mais tarde, quando conversam sobre isso com outras crianças ou passam por alguma orientação sobre prevenção de abuso na escola. Até aí, podem interpretar o abuso como uma relação especial, como uma descoberta mútua de sexualidade ou como algo que as outras crianças também passam. 

De todo modo, ainda que a criança possa fisicamente experimentar alguma sensação prazerosa diante do toque abusivo, isso não elimina o caráter nocivo, e por vezes traumático, do abuso.

Juliana Borges Naves

15 de dezembro de 2021Comments are off for this post.

A Vítima Pode Esquecer um Abuso Sexual?

A mente humana pode funcionar de formas bem complexas, que às vezes são difíceis de entender e até de acreditar. Em situações perturbadoras e traumáticas como um abuso sexual, é especialmente comum que o cérebro ofereça respostas diferentes das que a gente conhece para que o indivíduo lide com o medo e sofrimento intensos. Sobre isso, um dos jeitos estranhos que nosso organismo tem para minimizar o estresse de circunstâncias extremas consiste em apagar as lembranças referentes ao episódio, um fenômeno chamado de amnésia. Isso significa que: sim, é possível que crianças e adolescentes molestados não se recordem da violência ou que tenham memórias incompletas sobre o ocorrido, sendo que o problema pode se iniciar tardiamente ou se estender até a idade adulta.

A amnésia pode ser decorrente de condições neurológicas ou toxicidade, que não é o que estamos abordando aqui. Nos casos de traumas por abusos, esse sintoma é descrito pela psiquiatria como uma forma de dissociação. A dissociação é uma perturbação severa do psiquismo, em que, para defesa psicológica, a pessoa se desconecta mentalmente da realidade assustadora que tem diante de si.

 A amnésia dissociativa pode se apresentar de três modos distintos. No mais comum, ela é classificada como localizada e as lacunas de memória aparecem restritas a um evento ou período limitado de tempo. No caso da amnésia seletiva, os lapsos abrangem recortes específicos de uma situação, ou seja, alguns detalhes da cena são recordados enquanto outros permanecem obscuros. Por último, a amnésia generalizada é rara e envolve a total perda de registros cognitivos sobre a identidade e história de vida de uma pessoa.

Curiosamente, a amnésia pode envolver o esquecimento de algo traumático mesmo depois de o indivíduo ter um período com lembranças nítidas sobre a adversidade vivida. Além do mais, a amnésia pode ser revertida entre alguns minutos ou depois de décadas desde seu início. Nesses casos, é importante que a vítima receba ampla atenção em saúde mental, pois, o apagão das memórias não se dá à toa e a retomada à mente dessas cenas originalmente tidas como intoleráveis pode expor a pessoa a uma condição de grande sofrimento, mesmo que já tenha se passado um longo período desde o ocorrido. Da mesma forma, a ausência de lembranças sobre uma situação também pode ser angustiante para outras pessoas, que relatam acreditar que algo ruim lhes aconteceu em dadas circunstâncias, mas não têm recordações que lhes permitam concluir sobre os fatos. Para todas essas condições, a psicoterapia é o melhor caminho.

Liliane Domingos Martins

8 de dezembro de 2021Comments are off for this post.

Prevenindo futuros agressores

A gente sempre pensa em como preparar nossos filhos e as crianças próximas para que não passem por uma agressão sexual. Essa preocupação é tão séria e tão presente na família que, de um jeito ou de outro, as crianças acabam orientadas a evitar situações de risco, como, por exemplo, para não se aproximarem de estranhos.

Quando tratamos de violência sexual, muito se fala do que se pode fazer para evitar futuras vítimas, mas pouco se diz da prevenção de futuros agressores. 

E então? Será que há algo a se fazer nesse sentido?

A violência sexual é um problema complexo, que acontece em toda parte do mundo e em qualquer tipo de família, independentemente de raça, de gênero,

 da classe social ou de nível sócio cultural. Apesar disso, a literatura aponta que determinadas condições favorecem a ocorrência de violência, incluindo aqui a violência sexual. Sabendo disso, talvez devêssemos pensar em formas de diminuir as ocorrências de abuso não apenas pela via da vítima, mas considerando o agressor.

    Os dados mostram que o abuso sexual é mais frequente em culturas machistas e que não respeitam as crianças como sujeito de direitos. Nesse tipo de estrutura, mulheres e crianças são percebidas como objetos dos homens que assim podem dispor, inclusive do corpo delas, conforme queiram. Consequentemente, esposas e filhos passam a funcionar como meios de um homem descontar suas frustrações, de exercer o ódio ou de sustentar alguma forma de poder. 

    Embora agressores sexuais tenham diversas motivações para abusar de crianças e adolescentes, alguns o fazem para alívio de stress e como forma de demonstrar controle e dominação. Nesse contexto, buscar uma sociedade mais justa e igualitária, na qual homens e mulheres, além das crianças, sejam reconhecidos igualmente em seus direitos, pode contribuir para a diminuir o problema do abuso sexual.

Na mesma via, talvez seja possível prevenir futuros agressores na educação de nossos filhos, no dia a dia. Ressaltar a importância em respeitarmos uns aos outros para além das nossas diferenças e transmitir a ideia de que homens e mulheres são iguais em termos de direito é fundamental nesse sentido. Com isso, falamos sobre entender e respeitar as particularidades de cada um, reconhecendo que nenhuma pessoa, independentemente do gênero ou do sexo biológico, vale mais do que a outra.

Com as crianças pequenas, é importante criar um canal de diálogo, de troca de experiências e esclarecimento de dúvidas. Tanto nos meninos quanto nas meninas, perguntas sobre relacionamento e sexualidade surgem com frequência e é desejável que essas questões possam ser esclarecidas de forma respeitosa e realista. 

Dar lugar para que os meninos expressem seus sentimentos e para que as meninas se interessem por assuntos variados também é importante. Vemos que os estereótipos de gênero muitas vezes reprimem a expressão da curiosidade infantil e de habilidades ou interesses que podem ajudar muito no desenvolvimento afetivo e social das crianças. 

Em razão disso, é importante que as crianças do sexo masculino possam brincar do que quiserem, não só com brinquedos tidos como “de menino”. O fato de que um garoto eventualmente brinque de boneca ou de casinha não interfere na sexualidade dele, mas o ajuda a desenvolver habilidades de organização e cuidado, além de permitir que ocupe uma posição mais afetiva com relação ao outro. Um menino que consegue perceber as diferenças, mas lidar com elas de maneira natural e empática tem muito menor possibilidade de se tornar um futuro agressor.

Finalmente, a construção das ideias de privacidade, intimidade e autonomia é tão importante para prevenir futuras vítimas quanto para evitar futuros assediadores. Explico:

Se, do lado da vítima, devemos orientar quanto à autoridade que cada um tem sobre o próprio corpo e sobre a possibilidade de dizer não diante de toques invasivos ou indevidos, do lado de quem pode vir a violar a intimidade de alguém, os mesmos conceitos são importantes, dessa vez ressaltando a necessidade de respeitar a privacidade dos demais e de solicitar consentimento, caso deseje acessar o espaço íntimo ou o corpo do outro.

Juliana Borges Naves

11 de novembro de 2021Comments are off for this post.

O Abuso Sexual em Meninos

Em todo o mundo, os estudos sobre abuso sexual de crianças e adolescentes são quase unânimes em apontar que o número de meninas vítimas é bastante maior do que o de meninos. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019, 71,8% de todas as notificações de violência sexual no Brasil nos anos de 2017 e 2018 compreendem crianças e adolescentes do sexo feminino na faixa etária entre 0 e 17 anos.

Essas estatísticas não devem levar à negligência por parte daqueles que apenas têm “filhos homens”, pois, o mesmo levantamento indicou que o auge da vitimização em meninos é mais precoce do que ocorre com meninas: neles, por volta de 7 anos; enquanto para elas, o índice de estupros é mais frequente aos 13 anos. Além disso, por questões culturais, no caso de crianças e adolescentes do sexo masculino, os crimes dessa ordem são ainda menos registrados do que já acontece com meninas e mulheres.

A subnotificação dos crimes de estupro contra meninos tem diversas causas. Sabe-se que esse tipo de ocorrência é cercado de preconceitos que recaem sobre as vítimas e que os deixam mais constrangidos em revelar o problema. Isso se dá, em primeiro lugar, porque é socialmente esperado que os meninos se comportem como conquistadores e como aqueles que iniciam um ato sexual. Nos casos de violência contra eles, quando são subjugados e forçados ao contato íntimo, é como se ocorresse uma inversão dessa expectativa. Em resposta, muitas vezes os garotos sofrem críticas e piadas sobre sua sexualidade, algo bastante delicado quando se considera a cultura homofóbica em que estamos inseridos. Diante desses conflitos, muitos deles optam por não denunciar a situação.  

Um outro fator que implica na subnotificação da violência sexual contra meninos e rapazes deve-se ao fato de que, nesses casos, o estupro muitas vezes é socialmente interpretado com uma forma de iniciação sexual. Como são culturalmente estimulados ao exercício da sexualidade desde muito novos, crianças e adolescentes do sexo masculino podem não atentar para o caráter nocivo das aproximações inadequadas de terceiros ou até mesmo alegar que aqueles atos foram consensuais.

Não se enganem: apesar dos tabus que cercam a violência sexual contra meninos, eles também sofrem bastante com o problema. São comuns os sentimentos de vergonha, dor e tristeza que as vítimas expressam, e há efeitos que podem impactar suas vidas durante um longo tempo, de modo similar ao que sabemos que acontece com meninas. 

Liliane Domingos Martins

6 de outubro de 2021Comments are off for this post.

Comportamento Público x Comportamento Privado

Diante de suspeitas de abuso que envolvem familiares ou amigos, é comum que se venha em defesa do acusado, alegando que se trata de alguém gentil, responsável no trabalho, caridoso com as pessoas, bem quisto na comunidade ou bastante religioso. Esse argumento se baseia em uma premissa equivocada, de que as pessoas apresentam em público uma versão estendida de sua vida privada, ou seja, de que alguém que se comporta de forma socialmente adequada seria incapaz de um ato desviante na sua esfera íntima. 

Precisamos ter em mente que boa parte do nosso comportamento público é resultado do processo educativo e leva em consideração os padrões aceitáveis de conduta em cada cultura. Por causa disso, o modo como nos portamos em público não é, necessariamente, um reflexo dos nossos pensamentos ou desejos pessoais. É com muito custo que uma criança, por exemplo, deixa de bater nos colegas, chupar o dedo ou comer algumas secreções e é de se pensar quantas delas não mantêm tais hábitos escondidos, fora da vista das outras pessoas. Também é pela insistência de quem nos educa que passamos a guardar comentários ofensivos ou constrangedores, entendendo que certas coisas não se deve falar em público. 

O fato é que, ao longo da vida, a partir de correções externas ou da própria experiência, acabamos por desenvolver uma personalidade social, que nos permite sermos mais aceitos pelos outros. Isso não significa que não guardemos, no íntimo, opiniões desagradáveis, ideias agressivas, sentimentos negativos ou vontades inconfessáveis, que não dividimos com ninguém.

E é nesse ponto que se conclui que o fato de alguém se portar de maneira socialmente adequada não garante sua inocência quando falamos de violência sexual. O comportamento abusivo é um evento da esfera íntima, relativo à sexualidade do agressor, âmbito que, por natureza, não costumamos expor. Além disso, o abuso também se relaciona a outras questões de ordem privada, como agressividade, necessidade de poder ou desejo de submeter os outros à própria lascívia. Em muitos casos, o ímpeto de abusar surge de forma impulsiva, sem que o agressor consiga compreender exatamente o que produz essa vontade. De uma forma ou de outra, o que todo agressor sabe é que esse é um comportamento socialmente reprovável, que causa ódio e repulsa na maioria das pessoas. Sendo assim, os abusadores procuram se manter a salvo de suspeitas, agindo de forma amável e inspirando confiança.

Outro estímulo ao bom comportamento dos agressores é o fato de que inspirar a confiança dos familiares facilita o acesso às vítimas e também dificulta que os abusos sejam descobertos. É muito mais complicado para uma vítima denunciar alguém que faz parte do seu círculo de convivência, seja pelos conflitos internos que surgem a partir do abuso, seja pelos conflitos externos que a revelação pode provocar na família.

Dito isso, cabe entender que ninguém está acima de qualquer suspeita, quando se trata de violência sexual. Mesmo pessoas de postura ilibada podem abusar de crianças e adolescentes, de forma que todas as suspeitas devem ser devidamente investigadas. 

Juliana Borges Naves

22 de setembro de 2021Comments are off for this post.

O que fazer e não fazer quando uma criança ou adolescente conta que foi vítima de um abuso sexual

Se em algum momento você se deparar com uma situação em que uma criança ou adolescente conta que foi vítima de um abuso sexual, existem alguns cuidados importantes a serem observados.

Em primeiro lugar, saiba que falar sobre um abuso sexual costuma ser muito desconfortável para a vítima, pois envolve sentimentos de vergonha, culpa e medo. Desse modo, o adulto deve buscar oferecer uma escuta atenciosa e acolhedora, deixando que a criança ou adolescente relate livremente, com suas próprias palavras, o que aconteceu. É fundamental levar em consideração o estágio de desenvolvimento da vítima, que envolve um curso próprio de linguagem e de memória. Crianças possuem uma forma de lembrar as coisas que não é linear, por isso, tendem a apresentar relatos fragmentados, sem sequência temporal e pouco detalhados. O mesmo pode ocorrer com alguns adolescentes.

Cabe ao adulto não fazer “um interrogatório”, com perguntas persistentes sobre o assunto. Por mais que as emoções sejam fortes e surjam muitas perguntas, é importante não duvidar ou desacreditar a fala da criança ou adolescente. Perguntas repetitivas contaminam a fala da vítima e transmitem a ideia de desconfiança sobre o que está sendo relatado.

Durante essa conversa difícil, os momentos de silêncio e de choro devem ser respeitados. Além disso, perguntas e afirmações do tipo: “Por que você não me contou isso antes?”, “Por que você ficava perto de Fulano?”, “Eu te falei que você não devia andar com Cicrano”, “Você devia ter gritado, corrido...”, devem ser evitadas. Esse tipo de observação não traz nenhum benefício e aumenta ainda mais o sentimento de culpa da vítima.

Por fim, quando estiver conversando com uma criança ou adolescente vítima, não faça promessas que você não poderá cumprir. Não diga, por exemplo, “Pode me contar, não vou contar pra ninguém”. Isso não é verdade, uma vez que você terá que tomar providências para proteger a vítima e isso envolve relatar o que aconteceu. Fazer esse tipo de promessa que não pode ser cumprida pode fazer com que a criança/adolescente se sinta enganada ou traída por alguém em quem ela confiou.  

Silvia Pereira Guimarães

25 de agosto de 2021Comments are off for this post.

Entre a culpa e a responsabilidade

É muito recorrente que vítimas de abuso sexual relatem sentir culpa pela violência que viveram. Esse sentimento, tão presente e forte, pode até mesmo impedir que muitas delas tomem coragem para colocar limites no abuso ou para revelarem a alguém sobre essa situação. 

Quando falamos em culpa, devemos levar em conta que ela compreende dois aspectos. Uma coisa é a culpa no sentido legal do termo, que se refere ao componente de responsabilidade pela agressão. Outra coisa é a culpa no sentido psicológico, expressa pelo afeto que surge a partir da interpretação particular da vítima sobre a experiência abusiva.

Feita essa diferenciação, cabe ressaltar que, em todas as situações de assédio, a culpa, no seu sentido legal, é sempre do agressor. Isso quer dizer que, em nenhuma hipótese, a vítima pode ser responsabilizada pela violência que sofreu. Isso porque a culpa, enquanto ligada à responsabilidade pela violência, é obviamente de quem comete o ato.

Infelizmente, isso nem sempre fica claro e é comum que quem sofreu a agressão seja responsabilizado pela própria vitimização, em razão de seus hábitos, comportamentos ou do modo de se vestir. Se soma a esse erro a ideia equivocada de que a vítima pode ter consentido com o abuso de alguma forma, como nos casos em que não conseguiu esboçar reação. 

No que se refere à culpa que muitas vítimas experimentam, entende-se que depende de aspectos individuais e pode se originar por inúmeras causas. Embora não tenha responsabilidade legal pelo abuso, a vítima pode sentir-se culpada, por exemplo, por manter afeto ou proximidade com o agressor. Pode ainda sentir-se mal por não ter percebido o caráter perverso da interação a tempo de se proteger ou por ter tido alguma sensação fisicamente agradável durante o abuso, a despeito do desconforto emocional que a situação lhe causou.

Vemos que, em muitos casos, esse tipo de culpa nasce da ideia de que seria possível fazer as coisas de forma totalmente diferente. Olhando em retrospectiva, a pessoa se imagina capaz de estar mais alerta, de reagir de outro modo e de se autoproteger. É preciso entender que tais hipóteses partem de uma análise posterior, feita com elementos que a pessoa não tinha antes da agressão e, nesse sentido, constituem uma fantasia que não seria viável na prática. 

Além disso, nem sempre o abuso envolve violência física e muitos agressores investem seus recursos em um longo processo de aliciamento, a partir do qual identificam os pontos fracos de seu alvo, bem como as condições mais favoráveis para agir. Diante disso, podem se mostrar extremamente gentis e amáveis, carinhosos e companheiros, atitude que cria um vínculo de confiança, diminui a resistência da vítima e confunde sua percepção, possibilitando a conclusão do ato abusivo.

É importante saber que a culpa sentida pela vítima não só amplifica seu sofrimento, mas também dificulta a elaboração do trauma gerado pela experiência abusiva. Esse sentimento merece o cuidado profissional e pode ser devidamente trabalhado dentro de um processo psicoterapêutico. 

No que diz respeito à culpa por parte do agressor, cabe a devida punição legal, a partir da qual ele pode quitar sua dívida com a sociedade.

Juliana Borges Naves

28 de julho de 2021Comments are off for this post.

Como falar de violência sexual sem assustar as crianças

Boa parte das pessoas se choca com o fato de que haja adultos capazes de abusar sexualmente de crianças e a dificuldade em lidar com essa possibilidade é tanta que muita gente nem mesmo pensa sobre esse assunto. Entretanto, negar a realidade não faz com que ela mude e se a gente quer mesmo proporcionar alguma segurança para as crianças que a gente ama, não tem jeito, é preciso enfrentar o problema.

Quanto ao que uma família pode fazer para proteger os seus, orientações em termos de prevenção da violência sexual são fundamentais. Mas como falar sobre isso sem assustar as crianças?

No que diz respeito à segurança delas, quantos assuntos já não tratamos de forma corriqueira, a partir de ações do dia a dia? Não é assim que introduzimos hábitos de higiene, orientamos sobre os cuidados necessários para atravessar a rua ou para evitar acidentes como choques ou queimaduras? Da mesma forma, a preocupação com os perigos do abuso sexual deve estar presente no nosso cotidiano. 

Vemos que, em geral, as orientações nesse sentido costumam se resumir à informação de que as crianças não devem conversar com estranhos. Mas como sempre falamos por aqui, a maioria dos atos de assédio parte de familiares ou de pessoas próximas à vítima, o que torna esse tipo de precaução praticamente inútil para evitar que o abuso aconteça. 

Estratégias efetivas de prevenção envolvem educação em sexualidade, ou seja, estímulo para que as crianças tenham autonomia sobre o próprio corpo, sejam validadas quanto aos próprios sentimentos, identifiquem situações prazerosas e desprazerosas, bem como desenvolvam estratégias de autoproteção no seu contato físico ou afetivo com os outros. 

Uma atitude simples, mas que ajuda muito, é ensinar, o quanto antes, a criança a nomear todas as partes do corpo. Além disso, desenvolver a ideia de que algumas dessas partes são íntimas e não devem ser tocadas senão em situações específicas, caso precisem de ajuda. Nessa lógica, ainda que a família utilize apelidos para se referir à vulva e ao pênis, por exemplo, é importante que se oriente quanto aos nomes mais técnicos, para que a criança possa ser compreendida, caso precise reportar alguma situação abusiva.

A noção de privacidade também é fundamental. É necessário orientar que algumas coisas ou momentos são íntimos e devem ser respeitados. Por isso, em público usamos roupas de banho, calcinha ou cueca e fechamos a porta quando estamos no banheiro, por exemplo.

Nesse ponto, cabe esclarecer que a curiosidade sobre a diferença entre meninos e meninas surge naturalmente por volta dos três anos de idade, quando as partes íntimas passam a chamar maior atenção. É a época das perguntas constrangedoras, bem como dos atos de manipulação dos genitais, que tanto assustam muitas famílias. Essa preocupação muitas vezes é infundada, haja visto que a estimulação da vulva ou do pênis é uma atividade típica da criança nessa época e tem natureza diversa do que conhecemos propriamente como masturbação. No caso das crianças, tal comportamento tem como base a curiosidade em conhecer o próprio corpo e em experimentar as sensações de bem estar que este pode proporcionar, sem o componente erótico que integra a experiência de masturbação na fase adulta. 

Nesse contexto, é importante trabalhar com os pequenos a ideia de que é natural que sinta algumas sensações quando toca aquela parte do corpo, mas que se trata de uma área sensível, com a qual precisa lidar com certos cuidados, como delicadeza e higiene. Fundamental é reforçar a noção de que se trata de uma parte íntima, que só deve ser tocada por ela e mais ninguém, com raras exceções. Ademais, também deve-se orientar que a automanipulação deve ocorrer de forma privativa e não à vista das demais pessoas.   Com o tempo, esse comportamento tende a perder a frequência para as atividades cognitivas que integram a fase posterior, quando a atenção da criança se volta para as relações de amizade e a aquisição de conhecimento.

Outra ação preventiva que pode ser feita no dia a dia da família é o estímulo ao diálogo e o estabelecimento de um vínculo de confiança com as crianças.  Isso pode ser feito a partir de perguntas rotineiras sobre os acontecimentos do dia e sobre seus sentimentos. Aqui, o importante é construir perguntas livres, de forma que se sintam interessadas em respondê-las. Além disso, cumpre dizer abertamente que podem pedir ajuda sempre que precisarem, pois serão invariavelmente apoiadas. Tudo isso pode ajudar muito para que nossos pequenos não se sintam desamparados diante dos problemas que vierem a surgir.

Juliana Borges Naves

14 de julho de 2021Comments are off for this post.

Os dois pontos fundamentais da prevenção ao abuso sexual de crianças

Como já falamos aqui por várias vezes, o abuso sexual de crianças é uma realidade extremamente frequente em nossa sociedade. Os dados oficiais do governo, ainda que subnotificados, apontam para um número alarmante de meninas e meninos com idades inferiores a 14 anos vitimados. 

Diante desse quadro, ressaltamos que o conhecimento é o que propicia a adoção de posturas protetivas contra a violência sexual infantojuvenil. Existem dois pontos fundamentais nos quais se baseia o viés preventivo: a educação sexual da criança e o estabelecimento de vínculos de confiança. 

Mas o que isso quer dizer?

Isso quer dizer que é importante que crianças e adolescentes recebam educação sexual desde cedo, de forma adequada e em linguagem apropriada para sua faixa etária. Educação em sexualidade não é falar sobre sexo, mas sim falar sobre o corpo, sobre autocuidado e autoproteção. Quando são ensinados temas como consentimento, desenvolvimento e integridade corporal, a diferença entre toques agradáveis/permitidos e os toques desagradáveis/invasivos, as crianças e adolescentes se tornam menos vulneráveis a violações sexuais. 

Isso significa que tratar a sexualidade como tabu ou como assunto que não pode ser conversado dificulta a proteção dos mais jovens. Quando a criança não conhece o próprio corpo e não se apropria dele, apresenta maior dificuldade em reconhecer uma aproximação abusiva e impor limite. Quando ela conhece seu próprio corpo, tem mais chance de perceber quando sua privacidade está sendo violada e, a partir daí, buscar ajuda, relatar seu incômodo a um adulto de confiança, ou até mesmo reagir àquela situação. 

O segundo ponto fundamental da prevenção ao abuso sexual refere-se ao estabelecimento de vínculos de confiança. Isso aponta para a importância da construção de uma relação de amparo e liberdade entre a criança e o adulto de referência (que pode ser a mãe, o pai, algum familiar ou outra figura protetiva). Trata-se de um relacionamento em que a criança se sente segura para dizer abertamente o que está lhe incomodando, inclusive sobre temas da sexualidade, sabendo que aquele conteúdo será escutado e não castigado ou reprimido. 

Nesse tipo de ligação, o adulto tem a possibilidade de acompanhar o desenvolvimento da criança, podendo identificar, por exemplo, quando ela está vivendo um momento de angústia e sofrimento. A partir daí, é possível estabelecer um diálogo que lhe permita falar, relatar o que está acontecendo. Cabe ao adulto aprender a escutar a criança sem repreendê-la ou humilhá-la, mas entendendo que aquilo que ela expressa é algo relevante para ela. 

É importante lembrar que, com relativa frequência, abusos sexuais acontecem de forma gradativa, em um crescente de avanços sexuais. Quando a criança tem uma figura de referência a quem ela consegue dividir os acontecimentos do dia a dia e suas dificuldades, em uma situação de uma aproximação inadequada, ela poderá compartilhar seu incômodo mais precocemente, possibilitando que sejam tomadas as providências que irão afastar um provável abusador. Quando a criança não tem um adulto de sua confiança a quem recorrer, ela se torna mais vulnerável a aproximações abusivas.

Por fim, temos que entender que a chave para a proteção das crianças e adolescentes contra as violações sexuais está nas mãos dos adultos. As melhores estratégias preventivas encontram-se na educação sexual que será oferecida à criança e na construção de uma relação de confiança. A via da proteção não é fácil, nem rápida, mas é fundamental. Ela requer conhecimento e sensibilidade. Ela exige tempo e paciência. Ela demanda constância e amor. 

Silvia Pereira Guimarães

30 de junho de 2021Comments are off for this post.

Privacidade x Segredo: o que é cada um

Privacidade e segredo são duas coisas bem diferentes. Ambos fazem parte da vida das pessoas, mas é importante entender a distinção entre eles quando se busca cuidar de crianças e adolescentes contra abusos sexuais. 

A privacidade refere-se a certas experiências que os filhos têm sozinhos, mas que os pais sabem a respeito. Por exemplo, a maior parte das pessoas prefere ter privacidade ao usar o banheiro, seja para tomar banho ou usar o sanitário. Essas são situações em que nossas partes íntimas estão expostas e, como sabemos, o ideal é que terceiros não toquem ou vejam essas áreas do corpo dos outros. Sendo assim, as crianças são estimuladas desde novas a serem independentes quanto aos hábitos de higiene, de forma a dispensarem ajuda e a garantirem a própria privacidade nesses momentos.

No desenvolvimento da sexualidade, a exploração dos próprios genitais pela criança, no sentido da curiosidade e da geração de sensações,  é outro hábito natural, com os quais os pais não precisam se chocar. Caso não identifiquem anormalidades nessa prática, devem dar espaço para esclarecer as dúvidas dos filhos sobre o assunto e, principalmente, orientá-los de que tal comportamento deve ser sempre privado. Isso significa que os toques da criança em seus órgãos genitais devem ser realizados em locais isolados e sem contato com outras pessoas. Elas não podem, assim, fazer isso na escola, na frente de colegas ou de qualquer um mais velho.

Dessa maneira, a privacidade é assumida como algo bom, que permite ao indivíduo se conhecer melhor, a aprender sobre seus limites e sobre a importância de que respeitem seu espaço pessoal e momentos mais particulares, tudo isso feito de forma segura. De modo oposto, o segredo não costuma ser algo positivo, já que  ele surge de situações em que as crianças e adolescentes estão amedrontados ou constrangidos demais para contar aos pais sobre o que se passou.

Crianças que temem seus genitores, que têm receio de apanhar ou de sofrerem castigos severos procuram guardar segredos de seus pais como meio de evitar tais punições. Do mesmo jeito, aquelas que não têm um diálogo próximo e fácil com os seus responsáveis podem se sentir desconfortáveis para esclarecer sobre situações que envolvam as próprias descobertas sexuais, as dúvidas quanto ao tema, ou mesmo, para comunicar sobre qualquer aproximação abusiva.

Nesses casos, o segredo representa uma ameaça à segurança das crianças ou adolescentes, pois eles ainda não têm capacidade suficiente para, sem ajuda, dimensionar os riscos de algumas circunstâncias a que são expostos. Os pais, por sua vez, quando desconhecem as situações vividas por seus filhos, não têm como avaliar os problemas que lhes acometem, de onde vêm ou o quanto são perigosos. Em consequência, também não conseguem tomar as providências necessárias para manter suas crianças mais protegidas quanto a essas experiências ruins. Tal quadro faz com que os infantes tornem-se alvos fáceis de pessoas mal intencionadas e que, inclusive, estimulam a manutenção de segredos em relação aos pais. Isso é algo frequente em episódios de violência sexual.

Participe ativamente da vida dos seus filhos, demonstre interesse pelo que fazem, converse com eles sobre atividades cotidianas e permitam também que tenham momentos a sós. Esse tipo de atitude fortalece a identidade e individualidade das crianças e adolescentes, e melhor ainda, fortalece os laços entre pais e filhos. Quando essa relação de proximidade, diálogo e confiança é construída, há menos espaço para segredos e é possível que todos permaneçam mais resguardados contra qualquer forma de violência.

Liliane Domingos Martins